Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais

Sem Diplomacia

O espaço Sem Diplomacia, parceria entre o Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais e a Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp, tem como finalidade divulgar análises e comentários de natureza polêmica sobre eventos internacionais. As fontes de referência são jornais, revistas, blogs, sites de think tanks, ONG´s e demais meios em que o posicionamento afirmativo dispensa preocupações discursivas e de conteúdo com a moderação e a busca de consensos na opinião pública.

Nosso objetivo é contribuir para a informação e o debate sobre a conjuntura internacional a partir do registro de visões que por seu teor ideologizado e partidarizado tendem a ficar à margem da divulgação dos grandes meios jornalísticos, justamente porque vão direto ao ponto, sem rodeios, Sem Diplomacia. Os artigos postados levam o mesmo título da fonte de origem, acompanhado de uma síntese explicativa sobre seu conteúdo e o link para acesso à versão completa. Os textos de análise oriundos da equipe do Sem Diplomacia ou de colaboradores externos são publicados na seção Opinião.

Link: Unesp/semdiplomacia

Opinião

México: os números da violência

Marcela Franzoni

Mais um caso recente chamou a atenção para os níveis de violência no México: a morte da jornalista Miroslava Breach, no estado de Chihuahua. Foi o terceiro assassinato registrado no mês de março, depois de uma morte em Guerrero e outra em Veracruz.

Desde 2000, 103 jornalistas foram assassinados no México, o que torna o país o mais inseguro da América Latina para o exercício da profissão. Só no governo de Enrique Peña Nieto, que teve início em 1 de dezembro de 2012, foram 30 mortes. Dos estados da federação, o mais inseguro para a imprensa é Veracruz. De 2012 a 2016, Veracruz teve 19 jornalistas assassinados e oito desaparecidos. No caso do jornalista Ricardo Monlui, morto em 19 de março em um restaurante, ele contava com proteção federal depois que recebera ameaças. Nesse estado, também em março, ainda foram encontradas covas clandestinas que abrigavam dezenas de restos humanos.

Apesar da grande mobilização social contra a insegurança no país, o governo não responde de maneira contundente. Isso porque 90% dos casos de assassinatos envolvendo jornalistas ficam impunes pela justiça mexicana. Depois da morte da jornalista de Chihuahua, o jornal em que ela trabalhava, El Norte de Juárez, anunciou fechar a versão impressa em razão da falta de segurança aos correspondentes. A organização Article 19 classificou a morte como “crisis de violencia contra la libertad de expresión que impera en el país”, já que a morte de jornalistas vem conjugada com a de ativistas de direitos humanos, os quais denunciam os vínculos do crime organizado com as instituições.

O assassinato de jornalistas e ativistas conjuga-se, portanto, com um cenário mais amplo de insegurança e impunidade. Assim, incluem-se também os desaparecidos, cujo caso mais emblemático foi o que envolveu 43 estudantes do estado de Guerrero, em setembro de 2014, a violência de gênero, centenas de caso de deslocamento forçado e a própria corrupção. Em Veracruz, o governador do Partido da Revolução Institucional (PRI), Javier Duarte de Ochoa, encontra-se foragido depois de não ter comparecido para depor diante da acusação de corrupção e tráfico de influência. Ele já havia sido afastado do cargo em outubro de 2016 e teve também seus direitos suspendidos pelo partido.

A gravidade da violência no México é percebida pela população. Em pesquisa de novembro de 2016, da Buendía & Laredo, 69% dos mexicanos afirmam que a violência associada ao narcotráfico aumentou na gestão de Felipe Calderón e Enrique Peña Nieto, maior nível histórico desde 2008. Ademais, 71% dos mexicanos afirmam que a estratégia de combate ao narcotráfico deixou o México menos seguro. Em outra pesquisa que aborda a confiança dos mexicanos nas instituições, as muito confiáveis são a Marinha (48%), a Igreja católica (44%) e a Universidade Nacional Autônoma do México (40%). Por sua vez, as menos confiáveis são os partidos políticos, a polícia e o Instituto Nacional Eleitoral (INE). Nos partidos políticos, 84% dos cidadãos confiam pouco ou nada, enquanto com relação à polícia, a taxa é de 75%.

Quanto à corrupção, em pesquisa de fevereiro, 59% dos mexicanos afirmam que seu combate deve ser prioridade, estando atrás apenas da geração de empregos. Ademais, 50% da população considera que a maior quantidade de corruptos encontra-se no governo federal, o que claramente impacta nos baixos índices de aprovação de Enrique Peña Nieto. Atualmente, apenas um em cada cinco mexicanos aprovam a sua gestão.

Observa-se, portanto, o descrédito da população nas instituições governamentais e na capacidade das mesmas em responderem aos grandes desafios sociais. Muitos culpam a estratégia militarista de combate ao narcotráfico de Felipe Calderón pela violência atual, mas a de Enrique Peña Nieto, proposta como uma estratégia que incrementaria o papel das forças de inteligência, pouco vem sendo percebida como efetiva, tendo ainda como base a forte presença do Exército. No estado de Guerrero, por exemplo, parcelas da população já se organizam de maneira autônoma e não apenas contra os narcos, mas contra as próprias forças governamentais, que estão, em muitos casos, diretamente vinculadas ao crime organizado e à violência.

No caso de Guerrero, a conjuntura de violência também está vinculada à precariedade social em que vive grande parte da população. Pelos dados disponíveis no Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI), é uma das entidades federativas do México com menor nível salarial e com a menor concentração de estabelecimentos produtivos ativos, cenário contrastante com o que ocorre no norte. De acordo com o Índice de Paz México 2016, elaborado pelo Institute for Economics and Peace, Guerrero é o estado mais violento do México, onde as taxas de homicídio vêm aumentando paulatinamente desde 2004.

Nesse complexo cenário de violência e consequente descrença social, o Estado mexicano torna-se, portanto, um ator débil.

Postado em 06/04/2017

Entre o passado e o continuísmo: as eleições equatorianas de 2017

Carolina Silva Pedroso

Em 19 de fevereiro de 2017, realizou-se o primeiro turno das eleições nacionais no Equador. Além da escolha de uma nova composição parlamentar, os equatorianos foram escolher um novo presidente, após uma década de administração Rafael Correa. O atual mandatário, que impulsionou a chamada Revolução Cidadã, é frequentemente comparado ao líder venezuelano Hugo Chávez, com quem estabeleceu alianças, porém seguiu uma trajetória suis generis. Intelectual engajado, Correa elegeu-se com uma plataforma de refundação estatal, com base em um discurso voltado para a redução das desigualdades sociais e a proteção ambiental. Conhecido por ser uma das nações mais empobrecidas da América do Sul, o Equador possuía uma dívida social enorme e, nesse sentido, as políticas implantadas por ele garantiram às camadas mais baixas seus direitos sociais básicos e as incluíram na economia de consumo. Ademais, o histórico de grande instabilidade política do país, que chegou a ter sete presidentes na década que antecedeu a ascensão correísta, apresentava-se como um obstáculo adicional para esse outsider da política nacional. A Constituição de Montecristi, elaborada e aprovada em 2008 pela população, prevê mecanismos legais de estabilização política que tem funcionado para gerar a segurança jurídica mínima para o funcionamento do Estado. Embora também seja exportador de petróleo, como a Venezuela, o Equador é um dos países que melhor preserva sua biodiversidade e foi o primeiro país a reconhecer em seu marco legal a natureza como sujeita de direitos e a plurinacionalidade de seus cidadãos, reconhecendo o quéchua como um de seus idiomas oficiais. Apesar dos notáveis avanços que lhe renderam altos níveis de popularidade no decorrer desses dez anos, a personalização em torno da figura de Correa e os muitos embates que ele travou com setores privados no país, de maneira mais destacada com os meios de comunicação, fizeram com que houvesse também contestação de seu governo.

Em um contexto de enfraquecimento de governos populares na América Latina, e diante da impossibilidade constitucional de tentar reeleger-se novamente, Correa apoiou a candidatura de Lenin Moreno, que de 2007 a 2013 foi seu vice-presidente. Cadeirante e militante da causa dos deficientes físicos, Moreno é apontado como um expoente importante da esquerda latino-americana e, no centenário da Revolução Russa, desperta interesse não só por ser homônimo do líder russo, mas sobretudo por ser uma figura mais discreta que Correa. Entre 2014 e 2016, a convite de Ban Ki Moon, liderou a pasta de Deficiência e Acessibilidade das Nações Unidas e teve uma atuação destacada junto a empresas, organizações e governos no sentido de incluir os deficientes e promover a sustentabilidade. Seu principal opositor nas eleições é o banqueiro Guillermo Lasso, que já trabalhou com Jamil Mahuad, presidente responsável pela dolarização do Equador em 2000, e com Lucio Gutiérrez, líder que derrubou Mahuad e, posteriormente, foi também retirado do poder. Ou seja, além de representar o setor financeiro, Lasso integrou governos que foram altamente contestados pela população, mas que, ainda assim, logrou ser o segundo candidato nas pesquisas de opinião. Enquanto Moreno exprime o desejo de, pelo menos, 30% da população em manter os rumos do país, Lasso traduz o sentimento de volta a um passado mais liberal em termos econômicos e conservador politicamente. Assim como os demais vizinhos sul-americanos, o Equador encontra-se em um impasse entre um projeto que vigorou nos anos 1990 e um que triunfou nos anos 2000. Por ora, não há nada de novo no front.

Postado em 22/02/2017

Indicação de Moraes ao STF indica retrocesso democrático no país

Sara Toledo

A indicação de Alexandre Moraes como Ministro do STF para substituir a recente e controversa morte de Teori Zavascki demonstrou, de maneira curiosa, a crônica falta de sintonia entre instituições democráticas e os atores que a preenchem, evidenciando o déficit democrático do país, que ironicamente, viu à luz a (re) democratização sob a orquestração política do PMDB de Temer, então MDB, tecido pelos ideais democráticos em seus discursos.

Em um momento em que o país ainda tenta compreender a morte de Zavascki, ocorrida em um momento crucial das investigações Lava-Jato, em que o Ministro cumpria posição fundamental no desdobramento das investigações, especialmente aquelas com foro especial, a indicação de Moraes torna-se duvidosa, inclusive pelas suas relações como advogado civil da empresa Transcooper, em que a mídia tem apontado vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC). (http://m.huffpostbrasil.com/2017/02/06/as-controversias- do-novo-indicado-a- ministro-do- supremo_a_21708108/; http://www.cartacapital.com.br/politica/alexandre-de- moraes-e- o-triunfo- da-ineptocracia)

Contudo, além da crítica ético-moral do papel de Moraes, o mais significativo é o momento crucial em que o nome dele é indicado por Temer. O desdobramento da Operação Lava-Jato tem levado a atores-chave, que operam livremente na condução de nossa frágil e tímida democracia, de modo a já serem citados nas delações, passando pelas mais variadas legendas partidárias, inclusive pelo próprio presidente da República, Michel Temer.

Nesse contexto, a reiteração do senador Romero Jucá (PMDB) à afirmação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, sobre a necessidade de “botar o Michel num grande acordo nacional” indica de maneira muito evidente que a substituição de Zavascki acontece de modo a colocar um ponto final na Lava-Jato. Em gravação deflagrada em março de 2016, Jucá acrescentava à fala de Machado: “Com Supremo e tudo (…) Delimitava [ a Lava-Jato] onde está, pronto!”. Assim, a indicação de Moraes, se analisada à luz de tais fatores, sugere um golpe pesado contra o funcionamento de nossa democracia.

Adicionalmente, a queda do avião de Zavascki sugeriu o tensionamento perigoso das investigações da Lava-Jato com a classe política, tornando evidente a necessidade de divulgação dos processos de investigação mais do que nunca, na medida em que, como ministro relator da Lava-Jato, Zavascki investigava o foro privilegiado e tinha informações de importância central.

A publicidade dos processos das investigações é algo defendido até mesmo pelo juiz Sérgio Moro (https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/08/10/sergio- moro-defende-publicidade-de- processos-da- operacao-lava- jato.htm) que argumenta a necessidade das mesmas para o bom funcionamento da administração pública. Reiteradamente e indo pouco mais além, não seria exagerado afirmar que a abertura e publicidade de tais investigações configuram-se como fundamentais para a vitalidade de nossa democracia, na medida em que o próprio sentido da representação ganharia muito mais sentido e coerência.

Sem dúvida, há nos fatos a conflagração de uma bizarra dinâmica que perdura em nossa recém-democracia com todos os problemas de maturação: ela concilia o discurso democrático com práticas assustadoramente perversas; operacionaliza a democracia por meio das instituições propriamente democráticas mas com práticas e atores que debocham, na prática, do ideal democrático, de modo a garantir que a mesma respire confiante desde que não se afronte com os interesses da classe política, demonstrando em ações como a nomeação de Moraes, o retrocesso de nossa tão frágil democracia.


Sara Toledo é Pesquisadora IEEI-Unesp e NEAI-IPPRI.

Postado em 08/02/2017

Última cartada de Obama para Cuba

Alfredo Juan Guevara Martinez

Começa a se levantar a ponte migratória entre Cuba e os Estados Unidos, ou pelo menos é essa a impressão que fica para a sociedade da Ilha e para a comunidade cubano-americana. No dia 12 de janeiro de 2017, a menos de 10 dias de deixar a presidência, Obama decidiu extinguir a política dos “Pés Secos/Pés Molhados” que facilitava a entrada de imigrantes cubanos ilegais nos Estados Unidos.

Essa política foi oficializada na década de 1990 pela gestão Clinton, como uma forma de resposta à crise da onda migratória de cubanos balseiros que estourou após o fim da União Soviética e isolamento de Cuba, deixando o país do Caribe numa grave crise econômica. A “Pés Secos/Pés Molhados” estabelecia que cubanos que fossem apanhados em alto mar (pés molhados) tentando imigrar ilegalmente para os Estados Unidos seriam devolvidos para Cuba, enquanto que os cubanos que chegassem a terra-firme norte-americana (pés secos) passavam a ser admitidos e auxiliados pelo governo americano.

Se tornou comum nos últimos 20 anos a entrada de cubanos ilegais nos Estados Unidos, pois graças à combinação dos Pés Secos/Pés Molhados com outras políticas específicas que beneficiam apenas os imigrantes cubanos, a ilegalidade da entrada acabava sendo legalizada. Dessa forma, os cubanos estabeleceram diversas rotas para chegar aos Estados Unidos, sendo uma das mais comuns e populares a simples entrada por um posto de fronteira com o México. Com a extinção da política dos Pés Secos/Pés Molhados, apenas cubanos com visto legal passam a poder entrar nos Estados Unidos.

A questão migratória é talvez a segunda temática mais importante e delicada nas relações entre Cuba e Estados Unidos depois do embargo (além de estar diretamente relacionada ao próprio embargo). A nova medida de Obama possui diversos significados e consequências para as relações com Cuba. A política dos Pés Secos/Pés Molhados, apesar de ter sido implementada durante uma rodada de negociações bilaterais entre os países para sanar a crise migratória, nunca foi vista pelo governo cubano de forma positiva. Para Cuba, a medida incentivava a imigração ilegal de cubanos para os Estados Unidos, dado o tratamento beneficiado que estes recebiam. Terminar com essa prática é acatar com uma das exigências que o governo cubano tem feito durante muitos anos e, especificamente, durante o recente ciclo de normalização entre os dois países.

Além disso, o contexto em que acontece essa mudança é peculiar. Obama fez isso poucos dias antes de sair, e foi substituído por um Presidente republicano que já anunciou a possibilidade de reverter o processo de normalização com Cuba. Em tese, uma reversão total do processo de normalização está alinhada com os setores políticos e sociais mais conservadores acerca de Cuba, mas essa mudança no tema migratório complica a situação.

Acontece que hoje nos Estados Unidos é possível dividir a sociedade cubano-americana em dois setores de opinião política sobre Cuba. Os conservadores anticastristas, que são contra qualquer aproximação com o governo cubano, e os mais flexíveis, que não se importam tanto com as divergências ideológicas com o governo de Cuba, e são a favor de que as relações entre os dois países permitam proximidade com a sociedade cubana (visitas familiares, remessas de dinheiro e bens para a ilha etc.). A última medida de Obama afeta a ambos os setores, visto que eram beneficiados pela Pés Secos/Pés Molhados. Na verdade, uma grande parcela da população cubano-americana chegou de forma ilegal aos Estados Unidos e se legalizou com facilidade graças a esse tipo de política. Vale lembrar que essa comunidade hoje é um importante eleitorado na Flórida, estado-chave para eleições presidenciais.

Nesse caso, para agradar a influente comunidade cubano-americana como um todo, a solução do novo governo pareceria ser fácil: reverter a medida que abole a Pés Secos/Pés Molhados. Na verdade, não. Em primeiro lugar, a Pés Secos/Pés Molhados foi criada por Clinton, um presidente democrata. Se algo ficou claro nas eleições de novembro, foi a polarização ideológica dos Estados Unidos entre democratas e republicanos, em que não há uma conciliação clara. Além disso, grande parte da plataforma proposta por Trump gira em torno de um fechamento dos Estados Unidos para imigrantes ilegais. Ora, a medida de Obama nada mais é do que algo desse gênero.

Apesar de coerente com a iniciativa de normalização, a extinção da Pés Secos/Pés Molhados deixa evidente como é confusa a rede de interesses de políticos e sociedade em relação a Cuba. O próprio senador Marco Rubio (de origem cubano-americana) – que durante anos tem combatido medidas de flexibilização de viagens de visita a Cuba e remessas ao exterior, por meio da restrição da entrada de cubanos que não sejam perseguidos políticos – disse que valeria a pena o presidente-eleito Trump rever essa última medida adotada por Obama.

Mesmo que a normalização de relações com Cuba venha a ser totalmente revertida, é inegável que a gestão Obama moldou a história de relações da Ilha com os Estados Unidos, reavivando discussões sobre tensões do passado.


Alfredo Juan Guevara Martinez é mestre em Relações Internacionais pela PUC-MG, doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da UNESP (IEEI-UNESP). Especialista em relações Estados Unidos-Cuba.

Postado em 08/02/2017

Crise nas relações com os Estados Unidos: e agora, México?

Marcela Franzoni

Mestranda no Programa de Pós-Graduação
em Relações Internacionais San Tiago Dantas
(UNESP, UNICAMP e PUC-SP).

Donald Trump parece ter pressa de implementar uma de suas principais promessas de campanha, a construção de um muro na fronteira com o México. Assim, cinco dias após assumir o governo, no dia 25 de janeiro, assinou um decreto que prevê a sua construção, assim como a contratação de mais de cinco mil agentes federais para o patrulhamento da fronteira.

A ideia de construir uma barreira física entre os dois países não é nova. Em cerca de um terço da fronteira, em torno de 1080 quilômetros, já existe um cercado que divide o México dos Estados Unidos. Construída em 2006 por 20.000 trabalhadores, a barreira metálica já existente é diferente da proposta de Trump, que quer um muro de concreto e capaz de conter a entrada de imigrantes ilegais e aumentar a segurança no país. Durante a assinatura do decreto presidencial, reforçou o que já tinha dito durante a sua campanha, que o México irá pagar integralmente pelo muro. Ademais, Donald Trump afirmou que o planejamento da medida começará imediatamente, enquanto sua construção será em meses. Para o presidente, a medida também beneficiará o México, ajudando-o a controlar a imigração ilegal da América Central e os cartéis de droga.

Horas depois do decreto, Enrique Peña Nieto, presidente do México, fez um anúncio oficial condenando a decisão do governo vizinho, reafirmando que o México não pagará por ele. Disse ainda que o país não acredita em muros, que longe de uní-los, vai dividi-los. Ademais, afirmou estar tomando medidas para proteger os imigrantes mexicanos residentes nos Estados Unidos, oferecendo-lhes maior amparo legal.

O anúncio da construção do muro veio em um momento já bastante incerto no futuro das relações bilaterais entre os dois países. Estavam em Washington o Secretário Mexicano de Relações Exteriores, Luis Vedegaray, e o de Economia, Ildefolso Guajardo. É o início de um longo processo de renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte, composto pelo México, pelos EUA e pelo Canadá. Das primeiras conversas dos secretários com os assessores de Donald Trump, pouco foi divulgado à imprensa. Luis Videgaray classificou o dia como de contrastes, já que se disse surpreendido pela decisão do muro, enquanto teve sinais positivos da equipe de Donald Trump.

Até o pronunciamento oficial, ainda estava agendada visita de Peña a Washington, no dia 31 de janeiro, mesmo diante da mobilização doméstica para que o presidente adiasse. O Partido da Ação Nacional (PAN) no Senado pediu que o presidente reconsiderasse, assim como fez Jorge Castañeda, ex-secretário de Relações Exteriores, e a possível candidata presidencial para 2018, Margarita Zavala. Contudo, no dia 26 de janeiro, em resposta ao pronunciamento de Enrique Peña Nieto, Donald Trump colocou em uma rede social que, se o México não tem a intenção de pagar pelo muro, seria melhor que cancelasse a reunião. Então, logo depois, Enrique Peña Nieto anunciou que não irá aos Estados Unidos, apesar de reiterar sua disposição para trabalhar com o vizinho.

O cancelamento da reunião com Donald Trump expôs o atual nível de desacordo entre os dois governos, ademais da enorme pressão doméstica que enfrenta Enrique Peña Nieto. Colocou-se em dúvida também a real capacidade dos agentes mexicanos de negociar com a equipe de Trump e mais, de efetivamente conseguir um acordo onde as duas partes ganhem. Apesar do presidente Enrique Peña Nieto insistir em negociar, parece claro que há temas que não serão postos na mesa, temas que o México vem demandando historicamente, como a questão da segurança e a migratória.

É provável que Enrique Peña Nieto estivesse esperando os futuros desdobramentos das conversas dos secretários nos Estados Unidos para que pudesse tomar uma decisão definitiva. Para sua posição, a visita colocava-se como uma grande encruzilhada: se fosse acordada alguma medida que beneficiasse o México concretamente, podia ser que viesse a conseguir maior apoio interno, que hoje tem seus níveis mais baixos depois do aumento do preço da gasolina, decretado no dia 1º de janeiro. Se nada fosse acordado e ainda houvesse desencontros de informações, como na visita de Trump ao México, em agosto, reforçaria sua posição como um governo débil, comprometendo ainda mais sua base de apoio no país.

Diante do cenário incerto, erguem-se vozes na academia, no governo e entre o empresariado para a unidade nacional. O fato de estarem sendo abertas negociações entre os países do NAFTA mostra que pode ser um momento de redefinir o papel do México no mundo, incluindo suas relações com os EUA e com a América Latina. O Secretário de Relações Exteriores já afirmou que, caso a renegociação do NAFTA não gere algo produtivo para o México, o país não descarta a possibilidade de sair do Tratado.

Há, portanto, muitos desencontros e desacordos de qual seria o melhor caminho a seguir. O governo mexicano, além de entender-se com os negociadores estadunidenses, terá que agregar posições de vários grupos domésticos que conclamam participação nas negociações e pedem transparência na divulgação dos temas que serão discutidos. A unidade nacional passaria, portanto, por repensar uma nova estratégia de desenvolvimento socioeconômico, assim como na política exterior, reavaliando a posição internacional do México.

A conjuntura é bastante complexa. Os mexicanos deparam-se com a conjunção de dois processos simultâneos e que irão impactar na posição do país nas negociações: um governo desacreditado internamente, somado a uma posição no país vizinho fortemente antimexicana. Esse é, portanto, o maior desafio da política externa do México nos últimos anos, que ainda que gere cismas, apresenta um forte elemento que os une.

Postado em 26/01/2017

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